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Governança, Compliance e Transformação Digital: o que a organização não enxerga também é um risco

Por Mauro José Fernandes Tavares – Advogado e Professor Universitário

Durante muito tempo, falar sobre saúde no trabalho significava pensar principalmente em acidentes, doenças físicas e condições inadequadas do ambiente profissional.

Essa compreensão se tornou insuficiente.

O trabalho também pode adoecer pela pressão constante, pela sobrecarga, pelo excesso de responsabilidades, pela ausência de limites e pela sensação permanente de que nunca se consegue concluir tudo aquilo que precisa ser feito.

Na educação, essa discussão ganha especial importância.

Professores e demais profissionais da área convivem com cobranças por desempenho, preparação de aulas, avaliações, reuniões, tarefas administrativas, relacionamento com estudantes e famílias, atualização profissional e, muitas vezes, jornadas que continuam mesmo depois do encerramento formal do expediente.

O trabalho termina no relógio, mas nem sempre termina na mente.

É nesse contexto que o Burnout deixou de ser uma expressão distante para ocupar espaço cada vez maior nas discussões sobre saúde ocupacional.

No Brasil, o esgotamento profissional consta da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, associada a fatores psicossociais como organização do trabalho, jornada, relações profissionais, violência, assédio e outras condições capazes de comprometer a saúde do trabalhador.

Isso representa uma mudança relevante na maneira como se observa o ambiente profissional.

Saúde do trabalhador não significa apenas evitar acidentes.

Significa também impedir que a própria organização do trabalho se transforme em fator permanente de adoecimento.

No caso dos docentes, existe ainda uma característica particular: ensinar envolve uma dimensão emocional intensa.

O professor não entrega simplesmente um produto ou executa uma tarefa mecânica. Ele precisa manter atenção, comunicação, capacidade de adaptação, interação humana e responsabilidade sobre processos de aprendizagem.

Quando o desgaste se torna permanente, a consequência não atinge apenas o trabalhador.

Atinge também a qualidade do ensino.

É por isso que bem-estar e produtividade não deveriam ser tratados como conceitos opostos.

Durante muito tempo, determinadas organizações construíram a ideia de que produzir mais significa trabalhar mais horas, responder mais rapidamente e permanecer constantemente disponível.

Mas produtividade não pode ser confundida com disponibilidade ilimitada.

Um profissional exausto pode continuar trabalhando durante algum tempo. Isso não significa que esteja trabalhando bem.

A preocupação contemporânea com os chamados riscos psicossociais reconhece justamente essa realidade. Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 passou a incluir expressamente esses fatores no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais das organizações, alcançando situações relacionadas à sobrecarga, à organização do trabalho e às relações profissionais.

A discussão se torna ainda mais complexa diante do trabalho remoto.

A possibilidade de trabalhar fora do ambiente tradicional trouxe vantagens evidentes: redução de deslocamentos, maior flexibilidade e novas formas de organização profissional.

Mas trouxe também um paradoxo.

Quando a casa se transforma em local de trabalho, a fronteira entre vida profissional e vida privada pode desaparecer.

O computador está sempre próximo. O celular permanece conectado. Mensagens chegam fora do horário. Uma tarefa que poderia esperar até o dia seguinte parece exigir resposta imediata.

O profissional está em casa, mas continua no trabalho.

A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho já alertaram que o teletrabalho pode produzir benefícios ou riscos para a saúde física e mental, dependendo da forma como é organizado. Isolamento, prolongamento da jornada, dificuldades ergonômicas e ausência de limites claros estão entre os pontos que precisam ser considerados.

Na educação, essa fronteira pode ser ainda mais delicada.

Preparar aulas, corrigir avaliações, responder estudantes e organizar conteúdos são atividades que facilmente ultrapassam os limites da instituição e chegam à residência do professor.

A tecnologia que permite maior autonomia também pode produzir disponibilidade permanente.

Quando o adoecimento compromete a capacidade de trabalhar, a questão deixa de ser apenas organizacional e passa a alcançar também o Direito Previdenciário.

Transtornos relacionados à saúde mental podem gerar direito ao auxílio por incapacidade temporária quando houver incapacidade para o exercício profissional e forem preenchidos os requisitos previdenciários. O próprio INSS destaca a possibilidade de concessão do benefício em situações de incapacidade associadas à saúde mental.

Quando existe relação entre a doença e o trabalho, outras consequências jurídicas podem surgir, tornando especialmente importante a correta identificação do nexo entre a atividade profissional e o adoecimento.

Mas o objetivo de uma política adequada de saúde ocupacional não deveria ser apenas garantir proteção quando o trabalhador já não consegue exercer suas funções.

O verdadeiro desafio é impedir que ele chegue a esse ponto.

Isso exige discutir carga de trabalho, jornada, direito ao descanso, condições de trabalho, relações profissionais, autonomia e saúde mental com a mesma seriedade dedicada aos riscos físicos tradicionais.

No caso da educação, existe uma razão ainda maior para essa preocupação.

É difícil falar em qualidade do ensino quando aqueles responsáveis por ensinar estão permanentemente exaustos.

Cuidar da saúde de professores e profissionais da educação, portanto, não representa apenas uma política de recursos humanos.

É também uma escolha sobre a qualidade da própria educação.

Porque nenhuma instituição deveria considerar normal que o trabalho destinado a formar pessoas termine por adoecer justamente aqueles responsáveis por essa formação.